Avaliando publicações recentes e experiências vivenciadas em grandes empresas espalhadas pelo país, é possível perceber o grande aumento de afastamentos do trabalho, tendo como principal motivo, os transtornos mentais, motivados principalmente pelas alterações de humor, seguidos pelos episódios depressivos e quadros relacionados ao stress.
O fator psicológico não está relacionado a atividades distintas, grupos de trabalho ou porte empresarial, podem afetar desde o chão de fábrica à alta administração de uma grande empresa. O setor de telemarketing, por exemplo, é onde mais ocorrem situações de transtornos psicológicos, que atingem principalmente os atendentes, ou seja, independente de cargo e nível hierárquico. Atingir as metas estabelecidas, bater os recordes de venda, aumentar a curva da qualidade. Todos esses fatores e outros mais tiram o sono e aumentam a ansiedade de qualquer trabalhador que se considere “estruturado” para desenvolver qualquer atividade que exija um pouco mais de sua experiência.
Ao entrar em uma empresa para desempenhar o papel de atendente de telemarketing, o trabalhador passa por uma batelada de treinamentos. Treinamentos estes que o ensinam a falar como um robô, ser politicamente correto e até mudar o nome, sim, mudar o nome, um atendente de telemarketing que possui eu seu registro de nascimento o nome João, ao aceitar a função de “Operador de Telemarketing”, já não se chama mais João, terá que se identificar como “Cláudio”, tudo isso para que se o cliente não for tão educado como ele, o mesmo não se sinta tão humilhado, afinal de contas, quem está sendo “xingado” é o Claudio e não o João. Tudo isso é muito bem vindo, nos primeiros três meses de atividade, passados cinco, seis, sete meses, tudo se transforma, ele, o Cláudio, já não se reconhece mais como o João, não dorme mais porque quando fecha os olhos sente perfeitamente os fones em seu ouvido, não come mais, porque se acostumou a beliscar em seus míseros 15 minutos de intervalo que precisa dividi-lo entre comer, ir ao banheiro, beber água e relaxar, para voltar a ser o Claudio, educado, receptivo e politicamente correto. Aí vem a depressão, a falta de paciência, e o aumento dos índices de absenteísmo.
Os campos da saúde mental e trabalho ganharam destaque no país após a publicação na nova lista de doenças relacionadas ao trabalho (Portaria 1.339, de 18/11/1999 do Ministério da Saúde), o que começou a desencadear uma preocupação maior por parte das empresas com relação à prevenção, vigilância e saúde dos trabalhadores. Transtornos antes não identificados começaram a ser tema de discussão, como transtornos depressivos, o stress pós-traumático, o ciclo vigília-sono, a síndrome de Burnout, o alcoolismo e alguns estados demenciais desencadeados por neurointoxicação ocupacionais.
Algumas organizações estão adotando medidas para minimizar ou eliminar as causas de acidentes por transtornos emocionais, o mais visto hoje em dia, são as salas de gerenciamento de stress, com atividades que vão desde a ginástica laboral, até dinâmicas de grupo ao ar livre.
Uma das ferramentas que começa a ganhar um espaço nas organizações é a gestão de saúde e segurança do trabalho, mais utilizada pela OHSAS 18001, que em 2007 passou por uma revisão, priorizando como foco as questões emocionais, considerando os níveis de stress do trabalhador ao começar o desenvolvimento de sua atividade no início de sua jornada diária. A preocupação com a família, endividamentos, relacionamentos entre gerência e operacional começa a ter um valor de peso nos sistemas de gestão de SST.
Todas essas artimanhas, investimentos e “preocupação” das organizações se devem ao grande número de afastamentos para tratamento de saúde e a alta rotatividade de trabalhadores, o que não é interessante para a saúde financeira, além de gerar grandes passivos trabalhistas.
Tudo isso faz com que a prevenção de acidentes e a preocupação com os trabalhadores se torne uma das áreas que mais evoluiu nas últimas décadas. O formato dado ao SESMT, CIPA e outras iniciativas tomadas nesta direção é compatível com nossa cultura, com a necessidade de estabelecer um processo educativo e cultural capaz de corrigir erros grosseiros na nossa estrutura porquanto sociedade industrializada. No entanto, hoje em dia, mudar este modelo é um tanto quanto difícil. Primeiro porque não temos ainda inserida em nossa sociedade uma cultura mais arraigada com relação ao real conceito de saúde. Vivemos ainda num país onde é possível a troca de saúde por adicionais e isso ocorre num momento econômico onde tais adicionais fazem muita diferença nos ganhos dos trabalhadores.
Apenas este fato por si já demonstra a imaturidade de alguns envolvidos na questão e nos levam a ter dúvidas de como irão portar-se caso tenham para si a responsabilidade de tratar o assunto. É preciso que fique claro, em especial para aqueles que distante de tendências queiram de fato entender o assunto, que não foi e nem é o SESMT que se empenha para a manutenção e obtenção destes adicionais, antes, ao longo dos anos os SESMT se empenharam e tem conseguido trabalhar em prol da eliminação dos riscos. Isso é um fato palpável em muitas empresas por todo o país e em alguns casos com soluções de tal forma criativas que já há algum tempo vem sendo adotadas em outros países que se espelham na nossa Engenharia de Segurança para encontrar soluções para seus problemas.
Questão de prevenção de acidentes no Brasil passam como todas as demais questões estruturais, como assunto que carece de ser olhado com seriedade. Quando deparamos com as notícias de acidentes fatais, chama a atenção uma questão das mais interessantes: Não falta know how para que tais acidentes sejam evitados, a grande maioria deles ocorrem pela inobservância de questões primárias da prevenção. A maior condição insegura deste país é a certeza da impunidade que tem lugar comum ao lado de todas as demais barbáries que vemos. É certo que por todo mundo acidentes e situações inesperadas ou não programadas,ferem, mutilam e matam. Mas também é certo que há muito tempo nos países evoluídos acidentes como o que vemos em nossos noticiários deixaram de ocorrer na quantidade que ocorrem por aqui. Isso já é uma realidade dentro das empresas onde os SESMT atuam e de certa forma cumprem o papel da autoridade. Nos demais locais de trabalho, de onde as autoridades e a justiça mantêm-se distantes não seria a falta do SESMT algo a ser pensado?